Poema à boca fechada
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
sábado, 19 de junho de 2010
Um grande poema, um grande literário!
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Soneto do Amor Total - Vinícius de Moraes
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Senso Comum X Bom Senso
sexta-feira, 10 de abril de 2009
♪ "Você" Por: Beto Mejia ♪

Beto Mejía - Você
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Lua adversa " Cecília Meireles "

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Adormecida " Castro Alves "

Uma noite eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! tu és a flor da minha vida!..."
"Um grande amigo indicou a leitura dessa poesia, o agradeço pelos lindos versos que eu li e me encantei..."
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Clarice em Escassez - Por Ricardo Mota
Um texto de um amigo, do qual fiz questão de colocar no meu blog, ao Ricardo, aqui está o seu Texto "Clarice em Escassez".
Determinado a mergulhar num desses livros que desenterram vontades atenuadas e nos contam segredos obscuros da alma, fui à caça de uma obra de Clarice Lispector.
A Aventura começa desde casa quando acordei com umas de suas frases martelando a minha consciência incognoscível, deste modo me fiz crer que iria deverás atrás dela.
Não contente em entrar nessa peregrinação sozinho, arrastei o meu amigável primo, camuflei a minha ânsia e lhe contem que iríamos apenas comprar camisetas, coisas sem graça, logo, ele se deleitou sobre a minha inofensiva quimera.
Com minha vontade latente em pensamento, seguimos rumo à trilha dos tijolos amarelos, viajamos nas listras dos tecidos e ironizamos as cores grotescas do verão. Inventamos de mergulhar na maré do consumismo e gastamos tudo o que não podíamos, tivemos um momento fast food no vermelho e amarelo e debochamos dos escravos do sistema do tio Ronald.
Aparentemente eu tinha me esquecido de Lispector e ela de mim, quando veio tocar novamente a campainha da obsessão, assim fui obrigado a acentuar o pequeno guri que entraríamos no país das maravilhas e daríamos logo por oficializada a busca por Clarice.
Entramos em um beco que não é o Diagonal, porém nos revelou o paraíso, pois o paraíso poderia sim existir meio a tantas capas coloridas e folhas amareladas, vimos todos os imortais, contistas, romancistas, ensaístas, poetas exceto a hermética Ucraniana; ela mesmo não estava ali.
Ouvimos o segundo “Ah, Clarice não tem!” e notamos a tristeza florescer na face de uma vendedora amante dos singulares livros.
Seguimos ainda contentes para a próxima esquina, olhamos, procuramos e apenas vimos o Bentinho tentando destruir a imagem de boa moça de Capitu, o galante Dorian extasiado por sua beleza retratada num quadro e uma nordestina perdida em seus quatorze títulos questionando para que lhe serviria a felicidade.
Já tinha me dado por vencido (pensei em utilizar “caro leitor”, mas estaria me rendendo às narrativas de Assis e talvez não seja muito propício logo que estou transbordando Clarice) quando vimos um fiozinho de imortalidade brotando da prateleira me fiz crer e não apenas eu, mas o dono da livraria e meu companheiro, que sim era possível encontrarmos a autora de “Água Viva”, contudo para minha estupefação e não apenas a minha! ; Lá que vinha Macabéa com seu rádio emprestado, ouvindo a estação Rádio Relógio colocando deste modo um ponto final na minha esotérico esperança.
Acreditei que tal inquietação deixaria de existir por algum tempo, no entanto ela que plantou em mim a semente da necessidade, naquele exato momento impedia que a noites de chuvas tempestivas acontecessem.
Perplexo, deturpado, desencorajado, decepcionado com o abordo da missão, não apenas eu, pois meu primo também havia entrado nessa caçada, fomos embora cabisbaixo e calados; Ainda agora continuo.
Continuo ainda mais agora! Por me obrigar a relatar essa escassez desenfreada de Clarice.

